sábado, 25 de abril de 2009
Do mundo virtual ao espiritual
Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, daMongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, euobservava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de esperacheia de executivos com telefones celulares, preocupados,ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, jáhaviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aéreaoferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fezrefletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, eperguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula àtarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar,dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa demanhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé,de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garotarobotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenhoaula de meditação!'Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmenteequipados, mas emocionalmente infantilizados.Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960,seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessentaacademias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contramalhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação àmalhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha umacelulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Daespiritualidade? Da ociosidade amorosa?Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seuquarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio,sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou dequadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiososvirtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacionalda imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vailá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante datela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa ailusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Setomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa,comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, nãose chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo, que acabaprecisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta aneurose.O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todoesse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim,pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental trêsrequisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência deestresse.Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média,as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, noBrasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dosshoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedraisestilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é precisovestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se umasensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeirapelas calçadas...Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno,aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os váriosnichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo,acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista,sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagara crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Masse não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados namesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olharesespantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava dedescansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quandovendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenasobservando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!"
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